quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Universo paralelo

Há alguns anos, um primo me revelou a existência de universos paralelos. Pequena que era, temi um dia simplesmente 'cair' dentro de uma vala, assim como a Alice de Lewis Carroll, e parar numa outra dimensão. Hoje, isso me ocorre apenas nos sonhos. Mas, a verdade, é que conheci um outro tipo de abismo, sem ao menos me mover de lugar.
Uma outra prima, parafraseando Fernando Pessoa, sempre disse: a maior viagem é aquela para dentro de nós mesmos. Verdade. Conhecer o intocável, lá no abissal das minhas coisas, é, sim, bonito. Só que é implacável, sem volta. Não cabe a nenhum feiticeiro fantasioso inventar poções de ida e volta. E não se trata apenas de os neurônios conseguirem realizar sinapses em número maior do que os átomos por aí dispersos. Porque nesse universo interior, o interesse reside justamente no vazio.
Eu acabo sendo nada; tal qual um caracol, carrego a mobília nas costas. Me fazem aventureira, ignorando que fiquei. Desde o primeiro dia, ao tomar consciência da possibilidade de viajar e me conhecer, fiquei aqui, olhando os carros passarem desocupados de gente. Preenchimento é artigo das pessoas comuns. Eu vou doando o que descubro aqui dentro, o outro é quem vai embora. É triste, esse é um texto triste. Pela primeira vez, é desnecessário transmitir ideias grandiloquentes ou apelos informais.
Apenas quero resenhar meu oco, pois não sou outra desde a descoberta dessa divisão de universos. Se parar pra pensar, uma vez sendo infinito o universo, o paralelismo é inventivo. Tudo cabe dentro do meu nada. Mas não é assim. Há uma barreira entre o infinito de cada ser. Uns são mais rasos, mais toscos. Outros são lindos - intransponivelmente lindos.
Meu infinito anda desprezando o resto do mundo. Ainda que tenha a certeza de que ninguém pode me atravessar - e frutificar - não quero coisa alguma além de continuar sentada, ouvindo o barulho dos carros vagos. Das vidas em solilóquio. Melhor? Pior? Indiferente? Dispensáveis são essas perguntas. Nenhuma receita milagrosa ou metafísica foi descoberta. A vida se desfaz ao menor deslocamento de sílabas. Mas sabe, também, ser forte.
Um dia resolvo notar a força que senta comigo pra ver esses carros esquisitos. Por ora, fico com a mudez das nuvens que teimaram em chover, entretanto, acabaram com os olhos secos de tanto chorar, entendendo seus limites. Até um céu cinza sabe a hora de parar. Eu só sei que não preciso ter medo de pingos, de carros, de choro, de vento e da parede separando o que sou, da infinitude alheia. É mistério deles.

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